A gente nunca para de construir a nossa casa.

 

A gente nunca para de construir a nossa casa.

Me dou conta disso não por atuar construindo lares, mas por me ver, todos os dias, construindo o meu próprio.

Eu e Victor nos mudamos há quase um ano e, na urgência de ver tudo funcionando, de ter cada coisa no seu lugar, eu me esqueci de algo essencial: casa não nasce pronta. Ela se revela.

Construir um lar é, antes de tudo, um encontro. Um reconhecimento lento de quem somos e de como queremos nos expressar naquele espaço. Descobrir o que vai para a parede, o que fica guardado, o que pede tempo.

Ser arquiteta me dá facilidade no olhar técnico, na leitura do espaço, nas soluções rápidas. Mas, em algum momento, a pergunta apareceu: quem sou eu além da arquiteta? Onde mora meu olhar afetivo, para além do funcional?

Foi aí que entendi: casa é construção emocional. É pertencimento. É morar.

Quando chegamos, eu queria pintar paredes, desenhar móveis, trocar a luz do teto.
Um ano depois, as paredes seguem no mesmo tom de gelo do dia em que recebemos as chaves.

E, ainda assim, a casa tem identidade.

Dia desses, preguei novas peças na parede. Não estavam nos planos iniciais. Não tinham lugar definido. Mas agora fazem sentido ali.

Então o que mudou?

A gente precisa sentir a casa antes de transformá-la em lar. Sentir o espaço e, principalmente, se permitir estar nele. Deixar que a casa nos conheça também.

Se antes eu passava mais tempo fora do que dentro, hoje eu gosto de ficar. De observar. De habitar.

Isso me trouxe algo simples e bonito: vontade de me ver mais pelas paredes.

A gente muda. E a casa muda com a gente. E que bom que ela possa guardar vestígios de quem fomos.

Casa é isso: feita de capítulos, de fases, de encontros e reencontros entre a gente e o espaço que habita.

No fim das contas, a boa notícia permanece a mesma:
a gente nunca para de construir nossa casa em lar.

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